Em dezembro, a Kantina Prestes completa três anos. E esse ano foi diferente de todos os outros.
Não foi o mais fácil. Mas foi, talvez, o mais importante. Em julho aconteceu algo que eu esperava desde o começo: a Kantina se pagou inteiramente como restaurante pelo primeiro mês. Todas as contas, FGTS, INSS, impostos — tudo em dia. Parece simples quando eu escrevo assim. Mas quem já tocou um negócio sabe o tamanho do que isso representa.
Esse ano também implantamos a escala 5x2 — cinco dias de trabalho, dois de descanso. No setor gastronômico isso ainda é exceção, não regra. Eu quis que fosse diferente aqui. Time descansado cozinha melhor, atende melhor, vive melhor. E essa decisão vai ao encontro do que sempre acreditei: que trabalho digno começa pelo básico.
Uma das melhores escolhas que fiz foi mergulhar de cabeça no Sebrae. Consultorias de custeio, análise financeira, entendimento real de como o dinheiro se move dentro da Kantina — de quanto cada colaborador gera, de onde estão os gargalos. Fiz o Empretec, que me ajudou a enxergar minhas próprias limitações enquanto empreendedor e a trabalhar melhor os meus pontos fracos. Conheci gente incrível. Empreendedores de Natal que pensam em sustentabilidade, em trabalho digno, em propósito. Ver que não estou sozinho nessa visão de mundo foi muito importante pra mim.
Dessas conexões surgiu uma oportunidade que eu não esperava: me inscrevi no edital Impacta e fui selecionado. Conheci o Júlio — um especialista em sustentabilidade e serviço social que é surreal de bom no que faz. Ainda estamos no começo, mas até dezembro serão meses de aulas e consultorias que eu espero que ajudem a Kantina a crescer com ainda mais consistência. A ideia é que ela se torne referência — não só como restaurante vegano, mas como empresa que prova que dá pra fazer negócio com propósito.
Mas preciso ser honesto também sobre o que ainda não resolvi. Ainda não tenho meu pró-labore. Ainda não me pago. Trabalho mais do que deveria e descanso menos do que preciso. Não é queixa — é realidade. Faz parte do processo de construir algo do zero e acreditar que vai valer a pena. Eu acredito. Mas tem dias que o cansaço pesa.
São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Muitas propostas, muitos investimentos, muitas ideias. E muita falta de tempo, porque ainda sou eu que seguro boa parte do que precisa ser segurado. Quero ganhar dinheiro com isso, claro — tenho minhas contas, meus desejos, minha vida. Mas quero também que tudo isso tenha sentido. Que não seja só o dinheiro pelo dinheiro.
Não consigo encerrar sem falar sobre o momento do país. O primeiro turno das eleições me abalou. Fico apreensivo com o que vem pela frente — para as pessoas, para o meio ambiente, para quem acredita num Brasil mais justo. Mas ainda há esperança. Acredito que quem preza pelo próximo, pelo sustentável, pelo trabalho digno — sempre tem um lugar certo e tende a vencer. Por mais duros que sejam os obstáculos.
Esse é apenas um desabafo sobre como está indo esse ano. A Kantina segue. Com raízes mais fincadas, com propósito mais claro. Tentarei dormir, porque ontem eu não dormi.