Quando eu decidi empreender na Kantina Prestes, eu imaginava os desafios de abrir um restaurante. Mas a verdade é que só entende a dimensão disso quem está mergulhado no processo.
Antes mesmo da abertura, vieram as pesquisas de espaço, obra, material, fechamento de contrato com arquiteto, engenheiro, consultoria comercial, documentação, burocracias e dezenas de decisões que parecem pequenas… até acumularem todas ao mesmo tempo.
E isso é só o começo.
De onde eu vim antes da cozinha
Muita gente não sabe, mas antes da gastronomia eu trabalhei com produção cultural, televisão, tradução, turismo e intercâmbio estudantil. Minha experiência sempre esteve muito ligada à comunicação, promoção e construção de experiências.
Quando migrei para a cozinha, muita coisa dessas áreas me ajudou. Mas empreender trouxe responsabilidades completamente diferentes.
Porque quando você abre uma empresa, você não está lidando apenas com produto. Você está lidando com pessoas.
E junto com isso vêm contratos, encargos, férias, décimo terceiro, FGTS, impostos, escalas, conflitos, cansaço, pressão e todas as questões humanas que cada pessoa carrega consigo.
O ambiente que eu não queria reproduzir
Talvez uma das maiores motivações para criar a Kantina Prestes tenha vindo justamente das experiências ruins que vivi trabalhando em cozinhas.
Ambientes insalubres. Falta de valorização. Pagamentos atrasados. Sobrecarga. Desvio de função. Lugares onde o profissional era tratado apenas como mão de obra.
Eu não queria construir mais um espaço assim.
A minha intenção sempre foi criar um ambiente onde as pessoas se sentissem seguras para trabalhar. Um lugar com diálogo, respeito, pagamento em dia, material adequado e confiança mútua.
Pressão do trabalho é diferente de falta de dignidade
Porque cozinha já é, naturalmente, um ambiente intenso. Existe calor, barulho, pressão e demanda. Isso faz parte da profissão.
Mas uma coisa é a pressão do trabalho. Outra coisa é a falta de dignidade.
E eu acredito que liderar também é confiar. Se alguém da equipe diz que não está bem, eu não preciso transformar isso em disputa ou desconfiança. Se precisa ir embora, vá. Se cuide. Existe uma relação de confiança de mão dupla: eu confio no profissional que trabalha comigo e espero que ele também confie em mim enquanto empreendedor.
Empreender, no fim, não é só abrir um negócio. É decidir diariamente qual tipo de ambiente e de relação humana você quer construir.
Talvez esse seja o primeiro texto de muitos sobre os bastidores da construção da Kantina Prestes. Porque há muito mais por trás de cada prato do que aparece no cardápio.